Brazil
June 8, 2026

Pontos-chave
- El Niño pode ampliar perdas de nitrogênio por lixiviação na safra;
- Trigo exige de 120 a 150 kg/ha de nitrogênio para produtividades entre 4 e 5 ton;
- Cultivares precoces demandam 10% a 15% mais nitrogênio aplicado já na semeadura;
- Materiais precoces apresentam menor janela de aplicação e exigem maior precisão no manejo;
- Semeadura, duplo anel e espigueta terminal são as principais fases de aplicação de nitrogênio;
- Culturas de cobertura auxiliam na ciclagem de nitrogênio e reduzem custos com fertilizantes;
- Fontes nítricas e amoniacais aumentam a eficiência do nitrogênio e reduzem volatilização;
- Aplicação de ureia antes de chuvas moderadas reduz perdas e melhora o aproveitamento.
No trigo, assim como nas gramíneas, de modo geral, o nitrogênio é o principal nutriente demandado pela planta. É ele o principal responsável pela produção de biomassa e de grãos, fatores que se traduzem em produtividade ao final do ciclo.
Assim, a oferta de nitrogênio está diretamente relacionada com a expectativa de produtividade que o agricultor tem para a cultura do trigo.
Mas, em meio a um cenário global marcado por variabilidade no preço dos fertilizantes, impulsionada por questões geopolíticas, além da provável ocorrência de El Niño durante a safra de inverno, o produtor observa novos desafios para o manejo nutricional do trigo.
Diante desse contexto, o manejo nitrogenado da cultura precisa ser ainda mais técnico e estratégico, utilizando estratégias que possibilitem realizar o aporte de nitrogênio com mais eficiência, visando a obtenção de boas rentabilidades na safra.
Adubação nitrogenada no trigo: investir no manejo ideal ou reduzir custos?
De acordo com Giovani Facco, doutor em agronomia e especialista de desenvolvimento de mercado da Yara Brasil, o custo dos fertilizantes apresentou aumento de 15% a 20% em comparação à safra de inverno passada.
Junto a isso, o cenário climático, que aponta para uma safra com maior ocorrência de chuvas no Sul do Brasil, devido à presença de um El Niño, pode ocasionar maior perda de nitrogênio por lixiviação.
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Nesse contexto, é possível que prevaleça a busca por uma adubação em níveis abaixo do ideal, visando reduzir custos da lavoura.
Se o produtor seguir este caminho, ele deve ter em mente que, ao realizar um manejo mínimo de nitrogênio, o potencial produtivo do trigo já está sendo automaticamente limitado – o que, por consequência, trará uma margem menor.
Um cenário mais extremo, com a decisão de não cultivar trigo e manter a área em pousio durante o inverno, pode ser ainda mais prejudicial para sua propriedade, deteriorando as condições de solo e aumentando o custo de produção da cultura de verão.
Por outro lado, realizar o manejo nitrogenado do trigo em níveis recomendados, ou próximos do ideal, tende a ser a única forma de alcançar produtividades que tragam margem de contribuição positiva na propriedade, uma vez que o ano já deverá apresentar desafios inerentes a condições mais úmidas.
Como definir a adubação nitrogenada ideal no trigo
Em média, para produzir 1 tonelada, o trigo precisa de cerca de 30 kg/ha de nitrogênio absorvido e assimilado pela planta. Para a obtenção de altas produtividades, por volta de 4 a 5 toneladas do grão, a quantidade ideal de nitrogênio absorvido pela cultura é de 120 a 150 kg/ha.
Por onde passa uma adubação nitrogenada ideal para o trigo? Especialistas na cultura recomendam três principais momentos de aplicação de nitrogênio, com doses que devem variar conforme o ciclo da cultivar.
Em variedades com ciclos precoces, a indicação é que o produtor utilize uma dose de nitrogênio de 10% a 15% acima do programado no momento da semeadura. As aplicações podem ser fracionadas da seguinte forma.
Aplicação ideal de nitrogênio em cultivares precoces de trigo
- Semeadura: 35 a 40 kg/ha
- Duplo anel (4ª a 6ª folha): 50% da dose planejada
- Espigueta terminal (6ª a 8ª folha): 50% da dose planejada
Aplicação ideal de nitrogênio em cultivares tardias de trigo
- Semeadura: 25 a 30 kg/ha
- Duplo anel (5ª a 7ª folha): 50% da dose planejada
- Espigueta terminal (7ª a 9ª folha): 50% da dose planejada
Na prática, o agricultor deve considerar que as janelas de aplicação de nitrogênio durante o período crítico de definição do potencial produtivo são mais estreitas em cultivares precoces do que em materiais de ciclo tardio.
Isso significa que o manejo exige maior precisão no timing das adubações, reduzindo a margem para erros.
— Em cultivares de ciclos tardios, eu tenho uma flexibilidade e assertividade maior na aplicação, podendo até esperar alguns dias para realizar a adubação. Já em materiais de ciclo mais precoce, eu não tenho esse tempo para esperar. Então, de certa forma, cultivares de ciclos rápidos não só têm uma exigência maior, como também são mais técnicos de se manejar — explica Darlan Dalla Rosa, agrônomo e coordenador de desenvolvimento de trigo da GDM Seeds no Brasil.
Como fazer um manejo reduzido de nitrogênio no trigo
Caso o produtor busque realizar a adubação nitrogenada em níveis abaixo do ideal, ele também deve ajustar sua expectativa de produtividade para o trigo, segundo Dalla Rosa.
“Ao invés de uma expectativa em torno de 4 a 5 toneladas de trigo, eu reduziria para cerca de 3 toneladas”, avalia.
Considerando a necessidade de 30 kg/ha de nitrogênio absorvido pela planta para cada tonelada de trigo produzida, a quantidade de nitrogênio a ser utilizada passaria a ser de aproximadamente 90 kg/ha.
A distribuição do nitrogênio deve ser realizada nos mesmos momentos, conforme destacado acima: semeadura, duplo anel e espigueta terminal, com maior ênfase para a aplicação na semeadura em cultivares precoces em comparação a variedades de ciclo tardio.
Culturas de cobertura: estratégia para redução de investimento
Uma estratégia recomendada dentro de um cenário de investimentos reduzidos é a adoção de culturas de cobertura no intervalo entre o final da safra de verão e o início da safra de inverno.
Isso porque plantas como nabo forrageiro, aveia, ervilha ou ervilhaca possuem a capacidade de fixar o nitrogênio do solo e deixá-lo disponível à cultura subsequente, reduzindo a quantidade necessária de aporte do nutriente com bases químicas.
Contudo, a viabilidade econômica dessa estratégia depende da janela disponível entre a colheita da cultura de verão e a implantação do trigo. No geral, o uso de culturas de cobertura tende a ser mais eficiente em regiões onde esse intervalo é de, pelo menos, 40 dias.
— Quando o tempo entre a colheita do verão e os plantios do trigo são menores que 30 dias, muitas vezes o investimento de implementar uma cultura intercalar não compensa o retorno. Mas, quando esse período é de, pelo menos, 40 dias, é uma alternativa viável, pois esta é a única maneira em que é possível ciclar nitrogênio culturalmente e manter o solo melhor protegido frente às chuvas acima da média que podem ocorrer — pondera Giovani Facco.
Como reduzir as perdas de nitrogênio por volatilização da ureia
A ureia comum é o fertilizante nitrogenado mais utilizado no Brasil e no mundo. Porém, ele também é o mais sujeito a perdas por volatilização.
Para combater essa problemática, o agricultor pode utilizar duas estratégias. A primeira delas independe do produto que está sendo utilizado. Segundo Facco, o monitoramento climático pré e pós-aplicação de nitrogênio continua sendo uma prática essencial para aumentar a eficiência do manejo.
— A principal recomendação ao produtor que busca reduzir a volatilização da ureia é realizar a aplicação do fertilizante antes de uma chuva, desde que ela não seja excessiva. Isso permite com que a ureia realize a hidrólise e logo seja arrastada para dentro do solo pela água. Caso ela fique exposta ao sol e à luz por um período prolongado, as perdas por volatilização são mais significativas. Porém, é importante que a aplicação não seja feita nem antes, nem depois de chuvas excessivas. Por isso, o monitoramentoclimático ainda é o que há de mais adequado — cita.
A segunda estratégia para reduzir as perdas por volatilização durante a adubação nitrogenada é utilizar diferentes fontes de nitrogênio. Nesse sentido, destacam-se as fontes nítricas (NO3–) e amoniacais (NH4+), que apresentam maior segurança quanto à volatilização.
— Ambas são fontes consideradas seguras para uso. Porém, em cenários de maior volume de chuva, como em anos influenciados pelo El Niño, as fontes amoniacais tendem a oferecer segurança ainda maior, minimizando perdas por volatilização — acrescenta Dalla Rosa.
Escalonamento de semeadura ajuda a reduzir riscos no trigo
Além das duas principais estratégias para reduzir as perdas de nitrogênio, Facco ainda destaca uma terceira importante medida para oferecer mais segurança frente a um ano com tendência de clima mais chuvoso: o escalonamento de semeadura.
— É fortemente sugerido que o produtor escalone o plantio para reduzir riscos. Uma possibilidade é antecipar em alguns dias o início da semeadura e estender o término, minimizando a ocorrência de chuvas em fases críticas da cultura, como o florescimento. Além disso, é recomendável utilizar cultivares com maior nível de resistência a doenças de espiga — afirma.
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Nitrogênio residual do solo: o impacto da cultura antecessora
Um fator nem sempre considerado na hora de planejar a adubação nitrogenada do trigo é a quantidade de nitrogênio residual no solo, que varia conforme a cultura antecessora e até mesmo de acordo com a sua produtividade.
— Lavouras de soja que tiveram produtividades entre 50 a 60 sc/ha costumam disponibilizar um saldo de 15 a 20 kg de nitrogênio no solo para a cultura seguinte. Porém, em sistemas intensificados, em que a soja ultrapasse produtividades a partir de 80 sc/ha, a cultura acaba deixando saldo zero ou até negativo de nitrogênio no solo, utilizando o nutriente para equilibrar a relação carbono/nitrogênio (C/N) na decomposição de sua palhada. O mesmo ocorre em lavouras de milho, que degradam lentamente a palhada, demandando maior quantidade de nitrogênio e deixando um saldo de cerca de 15 kg negativos no solo — aborda Facco.
O manejo eficiente do nitrogênio será decisivo para a rentabilidade do trigo
Especialmente em um ano com maior presença de chuvas, é fundamental adotar estratégias para aumentar a assertividade do manejo nitrogenado na cultura do trigo.
— Acredito que o produtor irá conseguir realizar um bom manejo de nitrogênio mesmo diante de um ano mais chuvoso. Ele tem ferramentas à sua disposição, como fontes alternativas de nitrogênio, previsões climáticas e o escalonamento de semeadura, e elas devem ser utilizadas para obtermos maior assertividade no inverno — destaca Facco.
Conforme Dalla Rosa, é importante que o produtor não deixe de cultivar o trigo, mesmo frente a uma safra que pode apresentar desafios.
— Mesmo que com investimento reduzido, minha mensagem ao produtor é que ele faça o trigo, pois a margem de contribuição que a cultura irá oferecer ao sistema é muito mais positiva, ao longo dos anos, do que negativa — recomenda.
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